Dinheiro demais, controle de menos: quando os distúrbios financeiros viram armadilhas emocionais
- Márcia Fialho Fiuza Lopes

- 2 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 1 de jan.

Quando falamos de problemas com o dinheiro, é comum pensar em dívidas, falta de planejamento ou dificuldade em poupar. Mas há comportamentos financeiros que ultrapassam o campo da educação financeira e adentram o território da dor psíquica silenciosa, persistente, e muitas vezes disfarçada de virtude.
Vamos explorar outras manifestações desses padrões disfuncionais, que mais do que hábitos ruins, são formas desorganizadas de lidar com emoções profundas, histórias familiares não resolvidas e crenças inconscientes.
Acúmulo: guardar é seguro, mas até onde?

O acúmulo compulsivo, também chamado de hoarding, vai além da mania de guardar coisas que um dia podem ser úteis. Ele se manifesta como uma dificuldade real e angustiante de descartar objetos ou até mesmo dinheiro por um apego emocional desproporcional.
Essas pessoas costumam associar seus bens materiais a sentimentos de segurança, identidade e controle. Jogar fora é como se desfazer de uma parte de si mesmas. Do lado financeiro, isso pode se traduzir em resistência extrema a gastar, ainda que em situações necessárias, prejudicando o próprio bem-estar.
Bradley Klontz e Anthony Canale observam que o acúmulo pode parecer uma virtude socialmente valorizada, como o “bom hábito de economizar”, mas levado ao extremo, se torna um obstáculo para uma vida saudável tanto financeira quanto emocionalmente.
Enredados no dinheiro: quando os papéis se confundem

Outro distúrbio menos conhecido, mas muito presente, é o da fusão financeira (financial enmeshment). Ele acontece quando os limites financeiros dentro de uma família estão borrados por exemplo, quando filhos são expostos precocemente a problemas financeiros dos pais, assumindo preocupações que não deveriam carregar.
Essa dinâmica é comum em famílias onde não há diferenciação entre os papéis os pais compartilham demais ou contam com os filhos como salvadores financeiros, ou o contrário. Os efeitos são duradouros, adultos que cresceram assim podem ter dificuldade de construir autonomia financeira ou sentir culpa ao prosperar.
A compra como válvula de escape
A oniomania, ou compra compulsiva, ganha contornos ainda mais profundos quando olhamos para os padrões relacionais envolvidos. Cleide Guimarães, em sua tese de doutorado, investigou casais em que um dos parceiros era comprador compulsivo. Ela observou que o consumo, nesses casos, funcionava como uma forma de comunicação disfuncional uma tentativa de lidar com conflitos, frustrações ou vazios afetivos.
Além disso, a compra compulsiva não ocorre isoladamente: é frequentemente acompanhada de culpa, segredos, e desequilíbrios na dinâmica de poder do casal. Muitas vezes, o parceiro “controlador” assume as finanças e infantiliza o outro, criando um ciclo de dependência e ressentimento.
Outras faces dos distúrbios financeiros
O Inventário de Comportamento Monetário de Klontz (KMBI) traz outras manifestações desses comportamentos desordenados, como:
Dependência financeira: quando uma pessoa se apoia economicamente nos outros, mesmo podendo buscar sua autonomia. Isso pode parecer confortável, mas no fundo gera insegurança e baixa autoestima.
Capacitação financeira (financial enabling) o oposto: quando alguém sustenta financeiramente outras pessoas de forma disfuncional, impedindo o crescimento delas. Esse comportamento, muitas vezes motivado por culpa ou desejo de controle, pode esconder a necessidade de ser indispensável.
Essas relações com o dinheiro são construídas emocionalmente e, muitas vezes, de forma inconsciente. Elas se originam em vivências passadas, em mensagens familiares sobre merecimento, valor pessoal e sobrevivência.
Por que precisamos falar sobre isso?
Porque os distúrbios financeiros não são apenas questões de “desorganização”. Eles são sintomas de histórias mais profundas feridas emocionais, lealdades familiares, padrões de comunicação e crenças enraizadas.
E, como todo sintoma, eles pedem escuta. Não julgamento. É por isso que o campo da terapia financeira vem crescendo: ela convida a um olhar mais gentil e profundo sobre como cada um de nós constrói sua relação com o dinheiro.
Caminhos possíveis
Se você se identificou com algum desses padrões, ou se sente aprisionado em comportamentos financeiros que parecem não fazer sentido mesmo com toda a informação disponível saiba que existe ajuda. Com apoio profissional, é possível:
Identificar as crenças inconscientes por trás das decisões;
Reconhecer padrões herdados da família de origem;
Trabalhar a autonomia, os limites e o autocuidado nas finanças;
Resgatar o sentido do dinheiro como instrumento de vida e não como prisão.
Entre em contato e melhore sua relação com o dinheiro.



